setembro 16, 2004

Mães prematuras

A propósito de um relatório da organização “Save The Children”, divulgado ontem, quarta-feira, que revela que Portugal é o quarto país da União Europeia com mais mães adolescentes e o oitavo entre os países mais industrializados, fiquei a pensar – eu, que não sou sociólogo nem li nenhum documento que analise os porquês desta situação - que tão elevado número de gravidez adolescente só pode resultar de uma grande imaturidade com a consequente imprudência sexual.
E digo imaturidade e não ignorância pois, nestes tempos de informação fácil, em que abundam os sites, as revistas e os livros sobre métodos e práticas anti-conceptivas, não me parece que seja por desconhecimento que a generalidade das jovens adolescentes engravide.

Serão vários os aspectos que concorrem para esta situação.
Um deles é a ausência de formação sexual nas escolas. E formação, no meu entender, não se pode limitar a meras informações – isso, creio que os nossos jovens, melhor ou pior, sabem – mas incluir conscientização para as diversas e importantes questões que se prendem com o sexo, em vários planos, inclusive o afectivo e a responsabilização pessoal a nível de comportamentos.
Nunca, até hoje, se avançou na formação dos nossos jovens e dos nossos professores. Uma questão de que nunca se fala é da necessidade de formação dos professores na disciplina e/ou na temática de sexualidade. Ouvi, há alguns anos, em reuniões de Conselho Pedagógico em que estive presente na qualidade de representante da Associação de Pais, professores recusarem-se, pura e simplesmente, a falar sobre sexualidade com os alunos. Outros, conscientemente, alegavam falta de preparação para falar sobre o assunto. Contando ainda com a indiferença de alguns que se limitavam a encolher os ombros, eram poucos os professores entusiastas pelo assunto.
Também a nível dos Centros de Saúde ou outros organismos de saúde pública não existem praticamente quaisquer iniciativas ou acções de esclarecimento das camadas jovens sobre sexualidade. Aliás, tanto quanto sei, na maior parte dos centros de saúde as consultas de planeamento familiar limitam-se a uns conselhozinhos singelos, que não aquecem nem arrefecem, aos poucos jovens que lá vão e à oferta de uma caixinha de pílulas. (Se não for como eu digo, alguém que me corrija s.f.f.)
Outro aspecto que creio relevante para a existência de tanta mãe adolescente é a falta de comunicação entre os jovens e a família. Para muitos pais este assunto ainda é tabu ou então existe pouco à vontade para discutir o tema. E para tornar tudo ainda mais difícil, não são poucos os filhos adolescentes, mesmo aqueles que sabem que os pais são pessoas abertas nestas questões, que, a partir de certa idade, se recusam a falar sobre questões sexuais com os pais – talvez com medo que eles interfiram na sua vida afectivo-sexual - , ocultando-lhes eventuais problemas ou dúvidas, só o fazendo quando uma gravidez indesejada acontece.

E chegadas as coisas a este ponto, à gravidez da adolescente, toda a gente sabe quais são as saídas: ou ter o filho, com todas as nefastas consequências para a jovem mãe que assim vê a sua juventude e o seu crescimento truncados, os estudos e o futuro profissional ameaçados, e para a criança que vai nascer, quase sempre fruto de um relacionamento imaturo, muitas vezes de um pai que, irresponsavelmente, “não quer saber” e “dá o fora”.
Destaco, a propósito, que o relatório da organização “Save The Children” refere que, com base num estudo realizado em 13 países da UE, as mulheres que são mães durante a adolescência têm o dobro das probabilidades de vir a viver em pobreza.
A outra solução, neste nosso Portugal das maravilhas, é o aborto... clandestino e penalizável, com todos os custos e pesos que tal clandestinidade e penalização acarretam.

Publicado por vmar em setembro 16, 2004 01:21 AM
Comentários

É verdade que há pouca preparação dos docentes para abordar questões de sexualidade com os seus alunos.
É verdade que os centros de saúde poderiam ser mais eficazes.
A gravidez na adolescência não só é causa de pobreza como é fruto da mesma situação.
Engraçado que lendo a legislação portuguesa fica-se com a ideia de que nestes casos o aborto é possível... se calhar sou eu que leio mal...

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em setembro 16, 2004 03:14 PM

Boa abordagem caro amigo. Mas como diz e muito bem, julgo que aqui as mães sobretudo as mães têm um papel extremamente relevante a desempenhar para com as filhas. É evidente que uma filha não tem suficiente à vontade para abordar a sua sexualidade com o pai, ou com a mãe na presença deste. Mas a mãe tem toda a obrigação de fazendo o papel de melhor amiga da filha, aconselhá-la convenientemente sem qualquer espécie de pruridos de molde e evitar que aconteçam situações desagradáveis. Infelizmente existem muitas mães que absurdamente pensam que as suas jovens filhas pelo facto de não lhe apresentarem o namorado,
não praticam sexo. E depois espantam-se quando depois têm conhecimento tardio dos acontecimentos desagradáveis.

Afixado por: congeminações em setembro 16, 2004 07:30 PM

Tal como o Congeminações, penso que é fundamental o papel da mãe na formação sexual das adolescentes. A verdade é que esse é um assunto ainda tabu em muitas casas. E quem vive num meio pequeno e quase rural, como eu vivo, tem conhecimento das muitas jovens que passam por essa experiência, na maioria dos casos resultado dos poucos conhecimentos nessa matéria, pode parecer estranho pela muita informação e alertas que circula por ai, mas existem ainda muitas que não tem acesso a ela. E claro também e muito devido à imprudência!

Afixado por: Maria Branco em setembro 16, 2004 09:41 PM

Bom artigo. As razões para a gravidez na adolescência são múltiplas e diferentes consoante os casos. Não tens uma única razão, por isso não podes ter uma única medida de combate. Esse é um dos problemas, a variedade de causas dificulta a acção.

E claro, a inconsciência é a constante, porque toda a gente pensa que só acontece aos outros ... e afinal, assim não é.

Afixado por: maria em setembro 17, 2004 12:32 AM

E apesar de conhecermos todas essas trágicas realidades, vão-se fechando olhos e demorando a educação sexual a nivel das escolas.
Mentalidades novas precisam-se.
Um bom dia aos dois.

Afixado por: LetrasAoAcaso em setembro 17, 2004 12:08 PM

Julgo que o principal problema será mesmo o do tabu que ainda é mantido por todas as entidades referidas no post. Há muito pouco à-vontade para falar em temas destes e, apercebendo-se disto, os jovens remetem-se para o silêncio aconselhando-se entre si, o que muitas vezes acaba por não ser o melhor conselho. A vergonha ao adquirir contraceptivos numa farmácia, o encarar caras desconhecidas num assunto pessoal e privado como este dificulta muito a acção do jovem que, perante esta situação prefere arriscar correndo o risco de contrair DST ou mesmo de engravidar.

Afixado por: Rui em setembro 17, 2004 01:43 PM

Muito boa.
Continua, que nós apoiamos.

Afixado por: Edite em setembro 17, 2004 08:14 PM